sábado, 19 de julho de 2014

Filosofia dos pés



Localizados nas extremidades inferiores do corpo, os pés são membros fundamentais para a nossa estabilidade e locomoção. Porém, não obstante as funções biomecânicas, provavelmente é o fato de serem a parte da nossa estrutura física criada para manter contato direto com o solo que lhes confere sentido simbólico e filosófico. 
 O dia 29 de julho de 1969 entrou para história como o dia de uma proeza incomensurável. O homem poderia ter orbitado ou até aterrissado na lua, mas a missão Apollo 11 jamais teria a mesma glória se os astronautas não cravassem algumas pegadas na superfície lunar. Naquele momento, Neil Armstrong cunhou a frase “É um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade”, e comprovou que os pés podem expressar conquista.
 Sentido oposto teve a vinda da família real portuguesa ao Brasil em março de 1808. Ante a iminente invasão pelos franceses por descumprir o Bloqueio Continental imposto por Napoleão Bonaparte, a corte portuguesa foi compelida a evadir-se de sua nação. Quase três meses e meio após partir de Portugal, o toque dos pés do Príncipe Regente, Dom João, em solo tupiniquim, embora por aqui tenha sido festejado, na verdade representou humilhação.
O ministério de João Batista foi profetizado em Ml 3.1, e reconhecido pelo próprio Cristo em Mt. 11.10. Jesus ainda declara que “dentre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista”. Porém, mesmo com toda essa honra, o humilde profeta declara que não é digno de carregar as sandálias de Cristo. Com tal declaração ele se coloca como menos digno do que os pés do bondoso mestre e, dessa forma, ao tempo em que exalta o nome de Jesus, nos dá primorosa lição de humildade.
Lição de humildade ainda maior nos deu o próprio Jesus quando tomou água numa bacia, cingiu-se com uma toalha e lavou os pés dos discípulos. Este simbólico fato nos admoesta, ainda, sobre a santificação. Deus não está preocupado apenas com 90% da nossa vida, mas quer o nosso ser purificado até da sujeira que nos pareça menos relevante, pois como diz Hb 12.14, sem santificação ninguém verá o Senhor.
Em que pese o que já foi mencionado, seguramente a situação que nos legou maior ensinamento sobre o tema foi protagonizada por uma mulher que era conhecida simplesmente por “pecadora”. Jesus foi convidado a jantar na casa de Simão, o fariseu, mas durante a ceia uma mulher se aproximou de Cristo e, chorando, começou a molhar-lhe os pés com suas lágrimas. Depois os enxugou com seus cabelos, beijou-os e os ungiu com o perfume que trouxe consigo num vaso de alabastro.
Ao presenciar a cena, o fariseu disse a si mesmo: “Se este homem fosse profeta, saberia quem nele está tocando e que tipo de mulher ela é: pecadora”. Então, o piedoso mestre redarguiu a Simão, falando sobre perdão e comparando a atitude deste com a daquela mulher.
Conforme os costumes da época, o bom anfitrião recebia seu convidado oferecendo a este água para lavar os pés, o saudando com um beijo e o ungindo com óleo. Simão, entretanto, não fez nada disto. Naquela noite, foi a pecadora quem fez o papel de anfitriã. A atitude dela perante os pés do Nazareno foi uma prova incontestável de que ela o estava recebendo, não apenas na casa que não lhe pertencia, mas como Senhor e Salvador de sua vida. 
Diante do arrependimento daquela pecadora (humilde de espírito), Jesus lhe disse: “Seus pecados estão perdoados”. Entretanto, o mesmo não foi dito a Simão. A mulher teve a alcunha de pecadora mudada para salva. E nós aprendemos que precisamos ir com arrependimento aos pés de Cristo para recebê-lo como nosso Salvador e obter o perdão pelos nossos pecados.

            Artigo escrito por André Falcão Ferreira,
Publicado no Jornal O POVO de Fortaleza-CE, em 13/07/2014,
e Publicado no Jornal O DIA de Teresina-PI, em 17/07/2014.



sábado, 29 de março de 2014

Todos querem um Rei



         O anarquismo nem de longe é o sistema político mais almejado. Pelo contrário, a história comprova que ao longo do tempo as sociedades depositaram suas esperanças em um governante. É como se a humanidade tivesse uma expectativa, um anseio íntimo por alguém que lidere com justiça, sabedoria e amor. Alguém que tome o tão pesado fardo da responsabilidade sobre todos.
            O povo judeu viveu por muito tempo no regime patriarcal, depois sob a orientação dos juízes. Os patriarcas e os juízes eram lideranças e tinham certa autoridade, mas estavam submissos às leis divinas. Até que o povo decidiu exigir que um rei fosse constituído sobre eles (1. Sm. 8). Havia um desgosto com o comportamento dos filhos de Samuel, último juiz de Israel, e talvez o fato de os povos ao redor já viverem sob o regime monárquico os tenha atraído. Porém, Deus lhes advertiu acerca das muitas prerrogativas de um soberano. Ele poderia, dentre outras coisas, cobrar tributos e tomar servo para si. Mas, Israel, irredutível, insistiu por um rei.
            Com o passar dos séculos, a autoridade dos monarcas de várias sociedades foi sendo questionada, inclusive com insurreições grotescas. Até que no final século XVIII apareceram as revoluções com forte fundo intelectual, como as Revoluções Americana e Francesa. Começou a tomar vulto a ideia de democracia, um tipo de governo onde, em tese, prevalece a vontade do povo e que, até então, parecia apenas um mito romano. Mas, não sem antes lançarem mão de armas e, no caso da França, de um dos instrumentos mais bizarros já inventados: a guilhotina. Foi por esta que padeceu o rei absolutista Luís XVI.
            A maioria das revoluções, entretanto, mesmo contando com o apelo popular, deu lugar a novos tiranos que, apesar de possuírem menos poder, não deixaram de cometer maiores atrocidades, como no caso da França que ainda teve Napoleão, Luís XVIII e outros.
            Outrossim, não foi sem aprovação popular que as ditaduras se instalaram ao redor do mundo, principalmente nas Américas Central e do Sul, África e Ásia. Mas, a de consequências mais catastróficas, sem dúvida, foi a instalada na Europa por Hitler.
            Hoje temos democracias na maior parte do mundo, e os monarcas, não obstante vivam em grande opulência, têm apenas caráter representativo e ornamental. As democracias em vigor possuem vantagens inegáveis. Por outro lado, está patente aos olhos do cidadão mais displicente, que os governantes democráticos conseguem impor suas vontades, apesar das várias limitações impostas pelas leis. E para isto, não raro usam manobras escusas. É por isso que temos, mesmo nas maiores potências, terríveis mazelas como injustiças, desigualdades sociais, crises econômicas e até pessoas passando fome.
            Diante do exposto, não é difícil perceber que o problema não está no modelo de governo, mas em como e por quem ele é exercido. Não está no sistema monárquico em si, mas nos reis. Quando Deus advertiu os israelitas sobre os infortúnios que eles passariam sob a soberania de um rei, ele o fez não porque esse tipo de poder seja ruim em si, mas porque o homem, pecador e falível, não reúne condições para exercê-lo.
            O homem só pode exercer um governo, pelo menos razoável, quando conta com o auxílio de Deus. Não é à toa que os Estados Unidos tornaram-se a maior potência econômica, social e militar. Tal ascensão não se deu por causa das ideias de filósofos iluministas, mas como o escritor Laurentino Gomes ressalta no seu livro “1822”, ocorreu devido à instalação da cultura Protestante que, embasada nos princípios emanados da Bíblia, priorizou o ensino e o desenvolvimento. Embora hoje vejamos naquela nação um afastamento de tais princípios, principalmente por parte das autoridades, razão pela qual estão enfrentando grandes problemas.
            Não tenho dúvida de que, com exceção de alguns defensores radicais de algumas correntes de pensamento, as pessoas não estão preocupadas com o tipo de governo, mas por quem, e principalmente como esse governo é exercido. E quando o homem idealiza uma grande liderança, na verdade ele está tentando estabelecer novamente a regência de Deus, à qual ele abriu mão por causa do pecado.
            A expectativa de ver um líder justo e amoroso será suprida na pessoa de Cristo que derrotará todo o mal e regerá as nações (Ap. 19.15). No seu governo Ele “enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor” (Ap. 21.4). Jesus é o Rei perfeito! Sua monarquia é superior a qualquer tipo de governo que o homem possa implantar. E o melhor: governaremos junto com Ele, pois somos coerdeiros e filhos (Ap. 2.26-27; Rm 8.17; Gl. 4.5-6). Isto prova ainda mais que Jesus não é um tirano, mas além de Rei é Pai.
            O reinado de Cristo já existe parcialmente na Terra por meio da sua Igreja. O poder de Cristo foi conquistado não à custa da vida alheia, mas pela sua própria vida entregue espontaneamente na cruz. Dessa forma, não precisamos ficar à deriva esperando por um rei. Se nos arrependermos dos nossos pecados e recebermos pela fé a salvação em Cristo, já poderemos começar a fazer parte do seu reinado aqui na Terra por meio da sua Igreja, para depois participarmos do seu reinado eterno em paz, justiça e amor.

Artigo escrito por André Falcão Ferreira,
Publicado no Jornal O DIA de Teresina-PI, em 25/02/2014
e Publicado no Jornal O POVO de Fortaleza-CE, em 30/03/2014




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Wall Street: do outro lado da Cruz





       Localizada na cidade de Nova York, nos Estados Unidos, Wall Street significa literalmente “rua da parede” e representa o mais poderoso centro comercial e financeiro do cenário mundial. Naquela rua está sediada a Bolsa de Valores de Nova York, a maior do planeta em movimentação de recursos econômicos. Lá estão também alguns dos bancos e escritórios de empresas mais poderosos do mundo, instalados em suntuosos arranha-céus. Nas suas calçadas todos os dias pisam vários dos mais ricos empresários e investidores.
      Wall Street, entretanto, provavelmente seja a capital mundial da ganância, da avareza e da usura. Na rua onde são tomadas decisões que repercutem em todo o mundo, também acontecem transações escusas e indecorosas que não raro usam os meios públicos para o alcance de fins particulares. Ali, o capital que financia toda a imponência é o mesmo que corrompe e desperta um desejo compulsivo que torna alguns homens capazes de qualquer coisa para tê-lo. Homens com fortunas tão opulentas que nem mesmo todos os dias restantes de suas vidas seriam suficientes para exauri-las.
    E é devido a este segundo perfil que Wall Street também foi palco de verdadeiros colapsos financeiros com consequências catastróficas e de repercussões globais. A despeito das teorias e explicações técnicas de renomados estudiosos, resta evidente que crises como a de “1929” (grande depressão), das “empresas ponto com” (bolha da internet) e do subprime (bolha imobiliária) foram causadas mormente pela ensandecida fome de dinheiro de alguns homens. Um esquema megalomaníaco muito bem arquitetado para extrair o máximo de lucro e a qualquer custo: bancos vendendo títulos sem chances de retorno como se fossem altamente rentáveis, ex-diretores de bancos trabalhando em cargos do alto escalão do governo em favor de interesses particulares, agências de classificação de riscos cotando investimentos sem garantia de retorno como confiáveis e, fechando a conta, executivos recebendo fortunas de salário enquanto milhões de pessoas perdiam suas economias e empregos. Um dos símbolos da pujança norte-americana possui um lastro de atitudes vergonhosas.
Vergonha talvez ainda maior do que a patrocinada pelos agentes de Wall Street, a crucificação de Cristo, a princípio, pareceu a derrota da missão messiânica. O homem pelo qual viria a salvação de todos estava morto. E não por qualquer morte, mas por uma que era dispensada apenas a criminosos da pior espécie. Porém, o que muitos não sabiam é que tudo já estava profetizado. Em Isaías 53.7 assim estava predito sobre o messias: “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro”. E Jesus demonstrou que conhecia o seu próprio destino ao repreender por duas vezes o apóstolo Pedro quando este tentou impedi-lo de cumprir a sua missão (Mt 16 e Jo. 18.10). Em Isaías está previsto até mesmo a forma como Ele morreria: “e foi contado com os transgressores” (cap. 53), ou seja, como um facínora.
Jesus foi vilipendiado, não por causa dos seus erros, uma vez que não os possuía, mas pelos nossos. Isto também foi previsto por Isaías: “ele foi ferido por nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades”. Jesus abriu mão das suas prerrogativas divinas (Fp. 2.5,6) e se entregou a uma condenação humilhante por amor a todos nós. Esta condenação proporcionou a nossa vitória sobre o pecado, e a exaltação de Cristo sobre tudo e todos. Tal vitória foi consagrada logo após com a ressurreição. A Cruz que a princípio foi motivo de derrota tornou-se símbolo da maior vitória.
Diferente de Wall Street, Jesus não tinha boa aparência, imponência, nem uma vida suntuosa, mas era puro como um “cordeiro sem mácula”. Ele foi motivo de escárnio, porém foi alçado ao posto superior a todos os homens. A vida negociada por moedas, que não comprariam um único terno de um rico executivo, nos garantiu prêmio mais valoroso do que todo o dinheiro transacionado na Bolsa de Nova York. O lugar onde era produzido um espetáculo infame veio a ser o palco da maior prova de amor que já existiu.

Artigo escrito por André Falcão Ferreira,

Publicado no Jornal O Dia, de Teresina-PI, em 18/11/2013 
e Publicado no Jornal O Povo, de Fortaleza - CE, em 15/12/2013




domingo, 18 de agosto de 2013

Banheira de apartamento em Paris


       As nossas atitudes exercem grande influência sobre o lugar e forma que morreremos. Uma das maiores certezas que temos é que um dia nossas vidas chegarão ao fim. E isto pode acontecer das mais variadas formas. Mas, parece que a forma como alguns nos deixam provoca surpresa, dúvida e reflexão.
        Provavelmente estes sentimentos foram experimentados pelo eletricista que casualmente encontrou o corpo de Kurt Cobain em sua própria casa com manchas de sangue na cabeça e uma espingarda ao lado. A nota de suicídio deixada por Kurt denunciou a forma como foi morto. E as suas anteriores internações para tratamento da dependência química já demonstravam uma tragédia pessoal e anunciavam algo ainda pior. O calor explosivo do sucesso de sua banda Nirvana foi superado pela desilusão e frieza daquele corpo sem vida.
Ainda que em água aquecida, o frio da morte também encontrou Whitney Houston. Dona de uma voz inconfundível, a cantora se tornou a artista mais premiada de todos os tempos e chegou a vender mais de 200 milhões de cópias. Mas, foi vencida pelas drogas que a fizeram se afogar na banheira de um hotel. A criança que começou cantando no coral da sua Igreja e foi coroada com uma carreira brilhante teve um final nada glorioso.
        Quatro décadas antes, um cenário semelhante apresentou a controversa morte do cantor Jim Morrison da banda The Doors. O corpo do artista de 27 anos foi encontrado na banheira de seu apartamento em Paris. A causa oficial foi ataque cardíaco, porém a sua dependência das drogas e álcool levou alguns fãs e biógrafos a defenderem a hipótese de overdose.
         O fim de quem vive com dúvidas deixa ainda mais dúvidas. Essas pessoas não estavam certas do valor das suas vidas. E não é difícil perceber que a maneira como viveram, embora tão desejada, pavimentou o caminho para a partida trágica, prematura e insana.
        Kurt Cobain, Whitney Houston, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Elvis Presley, Elis Regina, Chorão e tantos outros: se eles tivessem decidido em algum momento de suas vidas viver conforme os ensinamentos cristãos provavelmente seriam taxados de loucos, fracos e até fundamentalistas. Ocorre que o final encontrado por eles não está disponível na trajetória cristã.
     Quando Jesus disse: “eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância”, Ele estava falando de algo que nem mesmo a morte pode vencer e falando de vontade de viver. Aos artistas aqui mencionados e a tantos outros lhes faltou vontade de viver. Faltou-lhes tratar a morte como o final de uma carreira e não como a interrupção. Faltou-lhes compreender os propósitos das suas vidas.
       Jesus tinha absoluta convicção dos propósitos da sua vida e até mesmo dos da sua morte, sendo que esta foi derrotada por Ele para que seja apenas uma mera etapa nas nossas vidas e não a nossa derrota. Ele não oferece uma alienação aos problemas, Ele é a força para vencê-los.
      A última música cantada por Whitney Houston foi “Jesus loves me”. Creio que, como o jovem rico (Mt. 19.16-22), ela estava demonstrando que amava a Jesus, porém não estava disposta a se desprender de tudo e seguir os rumos Dele. Há caminhos que parecem direitos ao homem, mas o fim deles são os caminhos de morte (PV 14.12). Todos nós seguimos por algum caminho, mas o de Cristo não acaba na banheira de um luxuoso apartamento em Paris.

Artigo escrito por André Falcão Ferreira,
publicado no Jornal O DIA, Teresina-PI, em 21/07/2013,
e publicado no Jornal O POVO, Fortaleza-CE, em 11/08/2013.




segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Renúncia do Papa e a flexibilização de valores da Igreja Católica





                O recente anúncio da renúncia do Papa Bento XVI ao supremo cargo da organização eclesiástica mais poderosa do mundo provocou elogios, manifestações desrespeitosas por parte de alguns movimentos e muitas especulações. Porém, infelizmente o fato supramencionado traz à baila os famigerados apelos pela flexibilização dos valores e princípios daquela instituição.
                Confesso que, como evangélico, tenho divergências teológicas profundas com a Igreja Católica, entretanto, como cristão, não posso deixar de concordar com os valores defendidos por ela, pois estes priorizam a vida, a família, o respeito, a decência e a moral.
                Ocorre que algumas pessoas que se consideram cristãs defendem que a Igreja Católica deve rever suas opiniões sobre aborto, uso de preservativo, casamento homossexual, pesquisas com células-tronco embrionárias, dentre outras questões. Ora, se a Igreja ceder a estes apelos, estará incorrendo num grave erro e numa terrível contradição com os princípios fundamentais que defende. É racionalmente impossível alguém defender a vida e o aborto ao mesmo tempo, principalmente se o direito à vida está sendo suprimido em nome de um suposto bem estar da mãe. O mesmo se aplica à utilização de vidas em estágio embrionário como se fossem mercadorias descartáveis. As células-tronco podem ser extraídas de outras formas. Em relação ao uso de preservativo, a Igreja condena a promiscuidade sexual. O preservativo não é um remédio ou cura: é uma forma mais segura de você cometer um pecado, ou seja, algo imoral segundo a Bíblia. Apoiar o uso dessa suposta precaução seria o mesmo que pedir que os assaltantes usassem coletes a prova de balas para realizarem o assalto de forma mais segura.  
                O casamento é uma instituição de origem religiosa que só depois foi regulamentada pelo direito. Ele foi criado entre homem e mulher na perspectiva da perpetuação da espécie. Se querem regulamentar a união de duas figuram que não sejam homem e mulher, seja dois homens, seja um homem e um animal, seja um homem e uma árvore, que criem outro nome, mas não casamento. A relação sexual é fundamental para o casamento, mas não pode ser a prioridade. Alguns até alegam que sentem um amor incontrolável. Entretanto, a Bíblia diz algo lógico e evidente: “amai aos vossos inimigos”, ou seja, o amor é algo volitivo, afinal de contas quem amaria seus inimigos por acaso? É claro que é algo que se decide. Amor “sem explicação” é meramente poético. Além disso, ainda que alguém discorde de tudo isto, a Igreja não pode rever seu posicionamento sobre tal tema, uma vez que a Bíblia condena a prática homossexual.
                O fato de a Igreja ter feito coisas erradas, como perseguido e matado na Inquisição ou até mesmo de alguns membros terem se envolvido em pedofilia não significa que agora ela deva mudar seus princípios. Um erro não pode justificar outro. E o principal, tais erros, como ela mesma reconhece, contrariam seus próprios princípios. Da mesma forma que, se alguns membros do STF forem pegos em delito no exercício de suas funções ou fora delas, não significa que a justiça deva ser mudada, mas sim os juízes. A imoralidade e perversão deste mundo não decorrem do Cristianismo, mas do fato de que muitos não seguem o Cristianismo que às vezes até pregam.
                A grande questão é que uma mudança de postura da Igreja Católica em relação aos aspectos acima comentados não viria de simples alterações nos costumes, símbolos, tradições ou mesmo do número de páginas da Bíblia, mas seria necessária, para tal, uma verdadeira mudança nos princípios e valores, o que seria algo mais profundo, contraditório e prejudicial. Creio que o caminho da Igreja Católica possui equívocos contundentes no aspecto teológico, porém me associo aos valores morais defendidos por ela.
Alguns setores da sociedade parecem querer agir guiados por instintos e procedem retrogradamente como o Império Romano, que sucumbiu por priorizar os desejos carnais, ou como atualmente a Holanda, que sucumbe ao liberalismo exagerado e está com os dias contados para a extinção dos seus descendentes, uma vez que a taxa de reposição é inferior à necessária.
Se o mundo comungasse dos valores defendidos pela Igreja, não haveria proliferação de doenças sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada, violência contra mulheres e homossexuais, não haveria drogas, roubo, corrupção, prostituição, assassinatos, fome e várias outras mazelas. E sinceramente, nesse contexto de perversão e imoralidade, o mundo é quem precisa se adequar à Igreja e não a Igreja ao mundo.

Artigo escrito por André Falcão Ferreira
e publicado no Jornal O DIA em 17/02/2013

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Santa Maria: mais sobre ambientes e práticas, menos sobre pessoas



Como grande parte da juventude moderna, já estive numa boate. Para ser mais franco estive em várias e por muitas vezes. Por isso, ao tempo em que estou deveras triste pelo episódio fatídico de Santa Maria, também estou muito grato a Deus por não ter acontecido comigo algo semelhante quando estava no mesmo tipo de ambiente.
Já andei por muitos lugares na minha vida: desde os agradáveis, seguros e descentes, até aos bem opostos a isto. E com o devido respeito, quero citar alguns como parques de diversões, casas de amigos, igrejas, repartições públicas, shoppings, clubes, ruas, favelas, casas noturnas e até prostíbulos. Porém, dos lugares por onde já andei, considero as boates um dos mais inseguros, mesmo as elitizadas.
Não estou falando de estatísticas, pois pode ser que os números mostrem, em termos absolutos, que em outros lugares pessoas morram ou se machuquem mais, como numa favela por exemplo. Mas, se compararmos o número de pessoas que andam em favelas e a quantidade de tempo que lá passam (incluindo os moradores, é claro) com o das casas de shows, é racionalmente evidente que estas últimas são relativamente mais inseguras.
E analisando sob a cosmovisão teísta cristã, que acredito ser a que melhor explica a existência e o funcionamento de tudo, posso afirmar categoricamente que boates são os ambientes onde há mais promiscuidade que conheço. Nelas está a maior concentração de pecado por metro quadrado. Brigas, contendas, palavras torpes, bebedeiras, drogas, adultério (por atos e pensamentos), fornicação (por atos e pensamentos), desobediência, ira, roubos dentre outros. E o pior é que se paga, às vezes, valores absurdos pra entrar nelas. Pesa ainda contra as tais o fato de que nelas muitos bebem o primeiro gole de uma funesta carreira de alcoolismo; fumam o primeiro cigarro de muitos que lhe matarão de câncer ou de várias outras doenças; começam relacionamentos promíscuos que resultam em doenças sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada e até aborto; ou iniciam o contato com um dos maiores males da sociedade atual – as drogas.
É possível encontrar alguém decente dentro de uma boate? Sim. Principalmente com o constantemente alterado e deturpado conceito de decência que consiste apenas em: “nunca matei e nunca roubei”. Por outro lado, há pecados e indecência em vários outros lugares e até mesmo naqueles considerados santos.
E por falar em lugares santos, é bem possível que alguém possa morrer ou ser agredido numa Igreja. Mas, uma pessoa intelectualmente honesta, independente de credo, há de concordar que nestas as pessoas são incentivadas a não iniciar ou deixar, a bebida, o cigarro, as drogas, o adultério, o roubo e muitas outras mazelas carnais e espirituais da sociedade. O pecado numa Igreja é, e deve ser, a exceção. Nas boates, entretanto, é a regra. Não precisa ser nenhum teólogo ou sociólogo para saber que a nossa sociedade seria bem melhor se os nossos jovens vivessem o que é pregado e praticado nas Igrejas e não o que é pregado e praticado numa casa noturna.
Não tenho condições físicas e espirituais de afirmar exatamente quem era correto ou decente naquela tragédia de Santa Maria, mas posso dizer por meio da cosmovisão cristã, baseada na Bíblia, que não é correto frequentar ambientes onde pecado é a regra, exceto para fazer ações como pregar a Palavra, semear o amor e ajudar ao próximo, como os bombeiros que entraram lá.
Lamento muito pelo ocorrido e entendo que as reflexões e os debates sobre o tema são pertinentes e devem se estender visando o aperfeiçoamento da sociedade.
Não podemos nos conformar com algo tão terrível ou esquecer tão facilmente. Quanto aos questionamentos sobre “onde estava Deus” num momento como aquele, digo apenas que é muito mais fácil cobrá-Lo do que obedecê-Lo.

Artigo escrito por André Falcão Ferreia
e  Publicado no Jornal O DIA em 31/01/2013

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Paradoxa Alegria




Segundo a ciência, uma substância chamada serotonina transmite informações entre as moléculas do cérebro provocando a sensação de prazer e alegria. Existem fatores que naturalmente estimulam a produção e liberação da serotonina como sexo, lazer e o Sol, proporcionando sensação de bem estar.
Ocorre que as pessoas podem ter sensação de alegria pelos mais variados motivos que, por vezes, são opostos entre si. Como no exemplo prático das disputas onde um lado comemora a vitória, enquanto o lado imediatamente oposto amarga a derrota. Há também o caso em que o lado vitorioso esboça satisfação não apenas pelo seu êxito, mas pela derrota alheia. Este último caso parece não ser moralmente correto.
Sentir prazer no sofrimento alheio é algo cada vez mais comum. Basta ver que, à semelhança do império romano, onde as pessoas tinham bem menos instrução e noções de direitos humanos, assistir gladiadores em arenas ainda é entretenimento. O Coliseu agora vai a domicílio pela televisão. Multiplicaram-se também os programas que expõem crimes e criminosos com viés de humor. Não imagino Jesus com os apóstolos comendo pipoca diante dessas programações televisivas.
E sobre o que é moralmente correto, provavelmente alguém não conseguiria patrocinar uma festa em sua casa regada por um farto banquete, sabendo que concomitantemente a do vizinho da direita está tomada por assaltantes que fazem a família refém e violentam as mulheres, ou, alheio ao fato de que o vizinho da esquerda há dias não tem o sustento da sua prole. Porém, expandindo a latitude e a longitude dessa reflexão, como alguém que contempla todo o planeta, veremos que situações iguais às descritas acima acontecem constantemente. O que muda é apenas a distância de um vizinho para o outro.
Após alguns anos de árduo trabalho e bilhões de reais investidos, o Brasil finalmente poderá ciceronear e celebrar, mais uma vez, a Copa do Mundo. Tem sido questionado, entretanto, o fato de que, pela ausência do investimento do mesmo volume de recursos, milhões de pessoas padecem perante uma má prestação dos serviços públicos de saúde, educação, segurança e assistência social. Também por alguns anos de trabalho e bilhões investidos, finalmente o homem conseguiu enviar uma sonda a Marte. Em todo o mundo foi noticiado e comemorado o grande salto na expansão espacial. Nada contra a expansão espacial, porém aqui na Terra fala-se no fim. Assim, não está claro se o homem está cobiçando Marte porque, por aqui, vislumbra-se o fim, ou se o possível fim da Terra está sendo vislumbrado devido aos densos investimentos em propósitos errados ou questões menos urgentes como a ida a Marte.
Sem dúvida precisamos de momentos de prazer e diversão. E não devemos parar o mundo toda vez que ocorre um sequestro, assassinato ou estupro. Ou devemos? Esta parece ter sido a atitude de Deus diante da queda do homem no Éden quando tratou pessoalmente do caso. Depois disto Ele diz a Caim, que havia cometido o fratricídio: “a voz do sangue do teu irmão clama da terra a mim”. E de fato o sangue inocente clama. Há um verdadeiro gemido nesta terra “como de uma mulher que está para dar à luz” conforme profetizou Jesus Cristo.
O atual rumo trágico deste mundo, que deixaria até Shakespeare de boca aberta, faz com que expressões puras e sinceras de júbilo tenham cada vez menos ocasião e tornem-se até inconvenientes diante de tanto sofrimento. Contudo, persiste a esperança de alcançar-mos, por meio de Cristo, um lugar onde o gozo não será momentâneo ou condicional. A alegria não dependerá de ponto de vista, nem haverá prazer naquilo que é moralmente reprovável. Por ora, a nossa sociedade precisa se desculpar com Caim.

Artigo escrito por André Falcão Ferreira
e Publicado no Jornal O DIA em novembro de 2012


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Mesa de bar em Berlim



A biografia do continente europeu é marcada pela desunião. Os pretextos para as disputas no velho continente iam desde poder e domínio de territórios até heranças e desavenças religiosas.
             Os impérios grego e romano foram protagonistas de grandes batalhas, inclusive internas. Na idade média, a França e a Inglaterra, como grandes potências econômicas e militares, assumiram este papel, como na “Guerra dos Cem Anos”. Conflito este que, pelo nome, já demonstra a disposição de digladiarem-se. O contato com os vikings pode ter favorecido o temperamento contendedor. Então, veio a “Guerra dos trinta anos” entre protestantes e católicos; passaram pelas disputas por territórios nas colônias; até chegarem nas duas grandes guerras mundiais, cujo cenário não poderia ser outro, senão a Europa. E claro, com direito a tiranos com propósitos megalomaníacos de domínio mundial. Só mesmo um país daquele continente teria um imenso muro de concreto dividindo-o ao meio como o de Berlim, na Alemanha.
            Então, ao final do século XX, contrariando o que já fora escrito, surge a União Européia. Ninguém poderia imaginar que isto um dia aconteceria. E com direito a moeda única, o euro. Todo o passado de desunião foi suprimido em prol do progresso e do desenvolvimento.
            A recente crise econômica que assola aquele bloco econômico-social não foi suficiente para desfazê-lo, apesar de esta idéia ter sido ventilada. Ao contrário, revelou novamente atitudes impensáveis há algumas décadas. A França e a Alemanha, arqui-inimigas nas guerras mundiais, juntas para promover socorro financeiro a países que, como a Grécia, estão afligidos por altas taxas de endividamento e desemprego. Hitler jamais admitiria tal aliança.
               Na contramão da crise está a Alemanha. Esta não passa por recessão nenhuma, pois manteve a disciplina na economia, ou seja, fez direitinho sua lição de casa. Enquanto a Grécia sofre com o desemprego, os cidadãos alemães compram, investem e até se divertem. Para eles crise é conversa de mesa de bar, assim como a história de desunião europeia. Agora, mais uma vez o passado está sendo deixado de lado, ainda que com resistência, pela sobrevivência do bloco.
             Origem de danos bem maiores à humanidade, a história de separação entre o homem e Deus começou no Éden. A desobediência criou um abismo entre os dois. Dessa forma, foi estabelecido um conflito que ainda persiste. De um lado a vontade divina e, do outro, a humana. Esse conflito, em suma, é a raiz dos males deste mundo.
        Sobre esse abismo de separação, entretanto, foi construída uma ponte. Isto é exatamente o que Jesus Cristo representa: um elo de ligação entre Deus e o homem. Do Senhor partiu a iniciativa da redenção. Agora não seremos mais condenados pelos nossos próprios pecados, porque Cristo já foi condenado por nós. Precisamos apenas “tomar a nossa cruz e segui-lo”.
               Infelizmente ainda há aqueles que resistem a passar por essa ponte.  Os motivos são os mais variados. Alguns sequer reconhecem que precisam dessa reconciliação, não reconhecem a crise nas suas vidas provocada pelo pecado. Porém, um dia terão que admitir. E, assim como vários países europeus, terão que pedir ajuda. Mas, poderá ser muito tarde.
            Por ora, a União Europeia luta para permanecer coesa. E as contendas do velho continente, para quem não viveu, assim como a salvação em Cristo para os incrédulos, são apenas assuntos para uma conversa descontraída. Talvez numa mesa de bar em Berlim. Mas, apesar da incredulidade que existe, Jesus continua reconciliando os homens com Deus. 

Artigo escrito por André Falcão 
e publicado no Jornal O DIA em 05/08/2012

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Lições de Guantânamo II



Ainda me lembro de algumas promessas de Barack Obama enquanto candidato a presidente dos Estados Unidos. Até porque a imprensa mundial não nos permite esquecer. Entre elas, o fechamento da famigerada prisão de Guantánamo.
Já ocorreram por todo o mundo várias manifestações contra a manutenção desse presídio. Uma delas constou no discurso da presidente Dilma Rousseff feito durante a visita a Cuba no começo deste ano. É natural a fala da presidente Dilma, já que ela sabe bem o que é ser preso político e Guatánamo é também uma prisão política. A contradição repousa sobre o fato de que o palanque do discurso estava montado num país referência neste tipo de clausura. Difícil de entender também o fato, de às vésperas da montagem de um novo palanque para reeleição daquele que prometeu o fechamento dessa prisão, ela ainda continua funcionando revestida com uma forte proteção do governo estadunidense, recheada de mistérios e contrariando os direitos norte americanos, os internacionais e principalmente os humanos.
E por falar em contradições, as nossas ruas estão repletas de pessoas que nunca estiveram e nunca estarão atrás das grades, mas estão presas. Contra elas não há nenhuma queixa, não têm passagem pela polícia, não respondem a processo judicial e às vezes sequer têm dívidas em atraso. Mas, há algo em suas vidas que lhes restringe a liberdade. Algo que à primeira vista não é notável. Algo que pode até ser considerado abstrato, porém traz consequências concretas e que saltam aos olhos. São os vícios, a ganância, o ódio, o rancor, a impureza sexual, a idolatria, a religiosidade infundada, o egoísmo e toda sorte de comportamentos espúrios.
A multidão dos que têm aparentemente uma vida desejável é enorme. Proclamam com orgulho que são livres, mas de livre e espontânea vontade tornam-se reféns dos próprios pecados. São até mesmo considerados vitoriosos ou bem sucedidos. Entretanto, estão derrotados pelos vícios, desejos que fogem do seu próprio controle. O sorriso que exibem de forma alguma denuncia o sofrimento interior, da mesma forma que Guantánamo não combina com o mar do caribe à sua frente. Cada interno daquele lugar custa R$ 800 mil dólares por ano. Muito além do que milhões de famílias têm acesso durante toda vida. Mas, bem menos do que o que é gasto com deleites desnecessários e acintosos por pessoas que, dessa forma, pagam para entrarem numa prisão.
Essa parecia ser uma especialidade dos israelitas. Constantemente eram levados cativos. O aprisionamento individual e interior começava com o rei e se estendia por toda a nação. Então, os seus muitos pecados afastavam a proteção divina, o que os tornava presas fáceis para os povos vizinhos. Mas, Deus tem uma capacidade bem maior de libertar: começando pelo coração e a mente. Depois, se necessário, abrindo paredes de água e de rocha. A propósito, o Mar Vermelho deve ter sido bem mais fácil de abrir do que os corações de hoje.
Jesus oferece a verdadeira liberdade. Aquela que fez Paulo, juntamente com Silas, orar e cantar hinos a Deus mesmo estando no cárcere com muitos açoites e os pés presos ao tronco. A mesma que Daniel sentia na cova dos leões. Ele quer nos fazer livres. Não das grades, mas mesmo atrás delas.


Escrito por André Falcão Ferreira 
e publicano no Jornal O Dia em 22/05/2012

                       

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Redescobrindo Valores


            Era dezembro de 1995. Eu tinha uns 10 anos de idade. Passamos o ano inteiro pedindo ao nosso pai e sonhando com elas. Vários amigos já tinham. E quando acordamos na manhã de natal lá estavam elas: duas lindas bicicletas paradas no meio da sala. Eram bem maiores do que as que já tínhamos. Não eram as melhores do mercado, mas eram ótimas. Além disso, já não acreditávamos mais em papai Noel e sabíamos que nosso pai tinha se esforçado muito para comprá-las.

            Então logo decidimos: a preta seria do meu irmão mais velho e a branca com detalhes vermelhos seria a minha. Mal podíamos esperar para sair com elas e dar uma volta. Tornaram-se nossas principais companheiras. Passeávamos na rua da frente, na praça do bairro, no clube aos domingos e se viajássemos elas iam junto.  Sempre sobre o olhar atento da nossa mãe que jamais nos deixava sair sozinhos. Todo final de semana um banho com muita água e sabão para tirar a sujeira. Se pudéssemos dormiríamos com elas. Naquela época bicicleta ainda era um dos brinquedos mais queridos de uma criança. O videogame e a internet ainda não tinham invadido os lares. Não havia tantas crianças obesas e muito menos depressivas.

            Mas o tempo foi passando. A nossa idade mudou e com ela os interesses e desejos. O tempo para brincadeira foi diminuindo. Marcas mais modernas apareceram no mercado e a pergunta nas nossas mentes: por que andar de bicicleta se podemos dirigir um carro? Começaram então a enferrujar. As peças danificadas não eram mais repostas. Até que foram encostadas. Aquilo que já fora um sonho caiu no esquecimento. Só voltaram a ser lembradas quando as vendemos para comprar simples pares de chinelos que estavam na moda: algo bem menos importante.

            Situações semelhantes acontecem muitas vezes nas nossas vidas. E pior: no lugar das bicicletas estão momentos, lugares, objetos que deveriam ter valor sentimental e até pessoas como esposas, filhos, pais e amigos. Às vezes conquistamos ou ganhamos algo que sempre sonhamos e/ou lutamos, mas com o tempo o sonho passa a ser uma realidade sem graça. Talvez a casa ficou pequena e confusa, o sorriso da esposa não tem o mesmo brilho, não há mais a expectativa do retorno do companheiro(a) após um dia de trabalho, a saúde e as notas boas dos filhos são comuns ou apenas obrigação, o almoço em família foi esquecido, boas lembranças não tocam mais o coração, aniversários e novos cortes de cabelo ou roupas passam despercebidos. E falando particularmente aos jovens, valoriza-se muito mais sair e virar noites com pseudo-amigos do que passar mais tempo com a família, cativar as verdadeiras amizades e ler um bom livro.

            O mesmo tempo que mês fez abandonar as bicicletas, me ensinou a valorizar o que mais importa. Principalmente as pessoas que mais amo. Pois as que mais amamos, às vezes se tornam as mais desvalorizadas. Procuro oferecer felicidade ao invés de apenas obter. E como bom cristão evangélico, valorizo cada vez mais a Palavra de Deus e a Sua Casa.

            A todo o momento surge algo novo que nos tira atenção do que realmente é importante, do que nunca deveria deixar de ser tratado como novidade É difícil dizer por que o que deveria ser mais valorizado está sendo trocado por coisas efêmeras e sem importância. Talvez isso faça parte da chamada “inversão de valores”. Mas tudo seria melhor se percebêssemos que o simples pão que vai à mesa diariamente é uma dádiva. Não troque que é mais importante na sua vida por um simples par de chinelos da moda.

Escrito por André Falcão Ferreira
Publicado no Jornal O DIA em 19/03/2011

sexta-feira, 2 de março de 2012

Lições de Guantánamo I




Localizado na Baía de Guantánamo, em Cuba, o presídio mais famoso do mundo está dentro de uma Base Naval dos Estados Unidos e é uma verdadeira fortaleza militar.

A prisão, que já foi tema de filmes, músicas, poemas e muitos artigos, voltou ao debate no Brasil após uma recente visita da presidente Dilma Rousseff a Cuba, onde fez um discurso que incluía direitos humanos e questionou a existência da prisão. A declaração não causaria nenhuma polêmica, exceto por dois motivos: Cuba é governado por uma ditadura há décadas; e o Brasil não é nenhum exemplo de direitos humanos.

Muitas fotos e vídeos foram vinculados pela mídia nesses dias, mas o que mais me chamou atenção não foi o poderio militar e nem o tratamento terrível dispensados aos internos daquela masmorra moderna. O que mais me fez refletir foi o que considero uma grande diferença entre os presos islâmicos, candidatos a uma longa estadia naquele assombroso lugar ou até mesmo à pena de morte, e muitos cristãos. Foi o fato de estarem privados da liberdade, longe de sua pátria, torturados e durante o banho de sol submetidos, a correntes nas mãos, pés e cintura e vendas nos olhos, ouvidos e boca, e apesar disso, ainda terem disposição para se curvarem e, prostrados, adorarem o seu deus Alá.

Não quero de modo algum com estas palavras fazer apologias à religião islâmica. Muito menos ao fanatismo religioso que subjuga mulheres, declara ódio a alguns países e incentiva e patrocina atentados terroristas. Até mesmo porque o islamismo não defende isto, mas sim algumas seitas de verdadeiros fariseus desta religião. Além disso, admito que muitos dos que estão naquela prisão são réus confessos, embora alguns tenham confessado sob tortura. Quero apenas extrair o exemplo de devoção e fé diante de situações até desumanas quando, ao contrário, alguns cristãos, mesmo crendo num deus que oferece perdão e amor, estão se queixando com ele, ficam insatisfeitos por não receberem dádivas que acham que Deus tem a obrigação de dar ou por não ter resolvido problemas que eles mesmos criaram, muitos chegam a entrar em depressão e alguns até mesmo tiram a própria vida.

Isto me fez lembrar um extraordinário episódio bíblico em que Paulo e Silas encontravam-se presos. Sem dúvida as condições de uma prisão romana há dois mil anos eram bem piores do que Guantánamo, principalmente pelos açoites que receberam e por seus pés estarem presos ao tronco. E detalhe: estavam presos apenas por pregarem o Deus que acreditavam e ao contrário de muitos do presídio em Cuba, não fizeram mal a ninguém, antes, o bem. O mais comum seria eles questionarem a Deus por que estavam presos já que estavam servindo a Ele. Afinal, quem os tinha enviado deveria no mínimo protegê-los. Ou será que Ele não tinha poder para tal? Entretanto, a Bíblia diz que “por volta da meia noite os dois oravam e cantavam louvores a Deus”. De repente, sobreveio um terremoto que destruiu a cadeia e eles foram livres.

Os islâmicos não têm um testemunho desses em seu manual de fé, mas fé e reverência não lhes faltam. Paulo e Silas louvaram a Deus antes de receberem o livramento. Ao contrário deles, muitos que se dizem cristãos sequer agradecem após receberem as bênçãos. É muito comum e fácil se aproximarem de Deus para pedir e para culpá-lo. Mas, se este mundo é considerado uma verdadeira prisão, Deus quer ouvir verdadeiros Paulos e Silas.

Escrito por André Falcão Ferreira 
e publicado no Jornal O Dia em 02/03/2012 





terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Ex tunc, ex nunc


Um dos ramos mais fascinantes do conhecimento é a Ciência Jurídica. Muito prestigiado no nosso país e com enorme influência na sociedade, o Direito permeia o nosso cotidiano assegurando garantias que abrangem desde o nascituro até os que jazem.

            Um dos pontos mais interessantes dessa disciplina é o constante uso de termos em latim. O próprio nome Direito vem do latim directus que significa “aquele que segue regras pré-determinadas ou preceitos”. Mas, duas expressões que despertam a curiosidade dos leigos e provocam dúvidas quanto aos seus significados são “ex tunc” e “ex nunc”.

            Ex tunc em latim significa “desde então”. Quer dizer que determinada decisão ou instrumento normativo, sobre fato no passado, possui efeitos “desde a data do fato no passado”, ou seja, retroage. É o que acontece no caso da anulação de atos administrativos. Por exemplo: se um servidor deixa de receber uma parcela da remuneração por um ato administrativo e em determinado momento constata-se que este ato é ilegal, o efeito será ex tunc, ou seja, retroage desde a data do referido ato e o servidor passa a ter direito a tudo o que não recebeu. Já ex nunc significa a “partir de agora”. Quer dizer que os efeitos da decisão só valem a partir da data da própria decisão, ou seja, não retroage. É caso de revogação de um ato administrativo como uma autorização de uso de bem público, por exemplo. Os efeitos passam a ser considerados a partir da data da revogação.

            Desde a entrada do pecado na humanidade por meio da queda de Adão no Éden, todos nós somos pecadores. E Paulo reforça isso em Romanos 3.23: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. E se para o pecado existe uma condenação: então todos são réus e estão sujeitos à condenação. Mas, a boa notícia é que o “sangue de Jesus Cristo nos purifica de todo o pecado” (1João 1:7). Em 1 Pedro 4:8 lemos que o “amor cobre multidão de pecados” e no Salmo 103:2 que “Ele é o que perdoa todas as tuas iniqüidades”.  Portanto, o perdão que Jesus Cristo tem efeito ex tunc. Isso mesmo: retroage em nosso favor até a data dos pecados mais antigos e nos livra da culpa. Em algumas oportunidades após operar a cura Jesus disse: “os teus pecados te são perdoados”. Sem dúvida estava se referindo aos pecados já cometidos até aquele momento.

            Por outro lado, após perdoar o Mestre afirmava: “vai e não peques mais”. Ele propõe uma nova vida. Essa sim com efeito ex nunc (a partir de agora), ou seja, a partir da nossa conversão, do nosso arrependimento. E Ele mesmo reforça: “eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10:10). Paulo cunhou de forma empolgante: “esquecendo-me das coisas que atrás ficam ... prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”. Por fim, João assevera em sua primeira carta: “estas coisas vos escrevo, para que não pequeis...” mostrando-nos o novo modelo de vida, mas completa maravilhosamente: “se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo”. Isso mostra a disposição constante de Deus em retroagir ao nosso favor para nos perdoar. Contudo, mediante o arrependimento.

Escrito por André Falcão Ferreira e

Publicado no Jornal O DIA em 27/01/2012


sábado, 31 de dezembro de 2011

Ilustre presença

            
               Há lugares que são muito vislumbrados. Alguns objetos, mesmo que às vezes minúsculos, são cobiçadíssimos. Cargos e empregos, cada vez mais disputados. Mas, se tem uma coisa que é bastante concorrida, não pelo valor intrínseco em si, mas fruto de uma sociedade cada vez mais materialista, é a presença de algumas pessoas.
            O valor ou a importância de cada um geralmente é medido pelo que este possui, por ações realizadas, por cargos ocupados ou por títulos. As três categorias podem ser cumulativas. John Rockefeller, magnata do petróleo mundial, tornou-se importante ao fundar a maior companhia petrolífera do mundo e acumular uma enorme fortuna. Martin Luther King, Billy Graham e Paulo Freire obtiveram grande admiração pela luta contra o racismo norte-americano, pela difusão em massa do Evangelho e pela revolução na educação, respectivamente. Getúlio Vargas no exercício da presidência da República foi aclamado pelo povo. Já Einstein conquistou os títulos de doutor e Nobel formulando a teoria da relatividade e tornando-se o maior físico da história.
            A presença de pessoas como as mencionadas sempre é muito valorizada. E a proximidade delas é sinônimo de status. Na campanha eleitoral de 2010 ter a imagem associada à do então presidente Lula, que encerrou o mandato com cerca de 80% de aprovação, consistia na melhor estratégia de campanha. Sua presença era altamente solicitada nos palanques e seu apoio foi decisivo para eleição da atual presidente Dilma Rousseff.  
            Segundo o relato do padre Simão de Vasconcelos, escrito em 1658, já na primeira caravela que Pedro Álvares Cabral fez voltar a Portugal com a notícia do descobrimento do Brasil, foi enviado um nativo da nova terra como prova. Chegando ao velho continente, o índio foi recebido com alegria pelo reino e introduzido na presença do Rei. E quem pode ser mais nobre do que um rei?    
            Na sociedade moderna as pessoas mais relevantes são chamadas de VIPs – Very Important Person.  Certa vez os discípulos de Jesus “começaram a discutir entre eles a respeito de qual deles seria o mais importante”. O sábio mestre, contrariando os conceitos da sociedade, aproveitou para nos dar uma primorosa lição: “o mais humilde entre vocês é que é o mais importante”. E humildade não parece ser característica dominante entre as pessoas consideradas mais importantes.
            A “mãe dos filhos de Zebedeu”, no capítulo 20 do Evangelho de Mateus, pediu a Jesus que colocasse em seu reino os dois filhos dela assentados um à sua direita e outro à sua esquerda. Porém, foi o ladrão que estava sendo crucificado ao lado de Cristo que, após reconhecer a sua condição de pecador e divindade de Jesus, ouviu as palavras alentadoras: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”.
            No Antigo Testamento, a presença de Deus era restrita. O sacerdote entrava apenas uma vez por ano no “Santo dos santos”, local mais sagrado do Templo, para oferecer o sacrifício pelos seus pecados e pelos pecados do povo. Com o advento da Redenção por meio do sacrifício na cruz, a presença do Todo Poderoso passou a ser irrestrita e ilimitada. O véu que separava, no Templo, o local “Santo dos santos” dos demais foi rasgado simbolizando o fim da separação entre Deus e o homem. Agora temos o livre acesso àquele que é o mais importante sobre todos. Aquele que distingue o homem pelo seu interior e não pelo que está fora. Agora por meio de Jesus Cristo temos livre acesso a Deus que está acima de qualquer fortuna, título ou cargo. Que a presença de Deus seja a mais solicitada nas nossas vidas.
            Escrito por André Falcão e
            Publicado no Jornal O DIA de Teresina-PI em 30/12/2011

           e  Publicado no Jornal O POVO de Fortaleza-CE em 06/10/2013

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O encontro

            


            Há cerca de dois mil anos um homem cego estava na cidade de Jericó à beira do caminho mendigando. Uma cena muito comum naquela época e hoje não muito surpreendente. Sem dúvida aquele homem não imaginava que teria um encontro que mudaria a sua vida para sempre.
             Existem a todo o momento encontros nas nossas vidas. Alguns meramente casuais e rotineiros. Mas, alguns parecem providenciais. São aqueles que nos marcam de forma determinante, tanto positiva quanto negativamente.
            Em 1871 o famoso encontro do jornalista inglês Henry Morton Stanley com o grande missionário escocês David Livingstone na atual região da Tanzânia abriu as portas para a colonização de boa parte da África Meridional pelas coroas européias. Uma exploração sangrenta e desumana. Rumo bem diferente do pretendido pelo nobre missionário que durante a sua vida proporcionou o encontro de muitas pessoas com Cristo.
            Mediado pelo ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton, o encontro do então primeiro-ministro israelense Isaac Rabin e do líder palestino Yasser Arafat nos Acordos de Paz de Oslo em 1993 significaram um trégua nos conflitos árabes-israelenses. Naquele mesmo ano o Pastor e Evangelista Internacional Josué Yrion foi à Rússia a convite de Boris Yeltsin como cortesia pela perseguição que o regime comunista impôs aos cristãos. Nessa ocasião o Pastor distribuiu cerca de 16.000 Bíblias e uma senhora muito emocionada ao receber a sua disse: “Faz 45 anos que Stalin tirou a única que eu tinha”.
             O retorno dos judeus para Israel após a sua declaração de independência em 1948 é para muitos teólogos cumprimento de profecias bíblicas. Os judeus reencontraram não só sua nação, mas a sua própria identidade que estava ameaçada de extinção. Hoje são novamente um povo forte e com um grande poder sobre o mundo.        
             Há todo momento alguém passa por nossas vidas, mas há pessoas que precisam encontrar-se consigo mesmo. Enquanto isso a natureza nos proporciona encontros ininterruptos como o das águas escuras do rio Poty com as barrentas do rio Parnaíba. É um lindo cartão postal e símbolo de nossa Teresina.
            Muito mais importante do que os encontros é o que acontece depois deles, ou seja, o que eles provocam. Os evangelhos sinóticos não descrevem a história exatamente da mesma forma, mas concordam em pelo menos três pontos principais: um homem cego teve um maravilhoso encontro com Jesus Cristo, foi curado e o seguiu. Muitas pessoas têm buscado a Cristo e até mesmo o encontrado, mas geralmente estão buscando as bênçãos, os milagres, as curas. E muitas vezes são atendidas em suas súplicas, mas logo esquecem daquele que os abençoou. Não sofrem uma mudança interior. Não querem segui-lo. Jesus certa vez disse: “se alguém quiser vir após mim, negue-se a sim mesmo, tome a sua cruz, e siga-me”. Aqui está o principal. Aquele cego de Jericó tomou a atitude mais importante da sua vida: o seguiu. Mais importante do que encontrar-se com Cristo e até mesmo do que receber seus milagres é segui-lo.

      Artigo escrito por André Falcão Ferreira
    e publicado no Jornal O Dia em 28/11/2011.